Esta foi a matéria de revista que eu e meu amor fizemos para a disciplina de Entrevista, Apuração e Reportagem, lá da Faculdade. Ainda não consegui colocar as fotos que ele tirou, mas assim que der ponho. E se alguém gostar, só avisando que a gente tá procurando estágio em Jornalismo, viu? Esta reportagem foi eleita a melhor da turma!
Sexualidade, os papéis do homem e da mulher na sociedade, preconceito... Essas e outras questões estão na pauta da maioria dos jovens. Existem muitas campanhas alertando sobre o perigo das drogas e a importância da camisinha para prevenir DST/AIDS e evitar a gravidez na adolescência. Campanhas no rádio, na TV e cartazes coloridos tentam chamar a atenção dos jovens para esses assuntos. Mas onde estão esses espaços de discussão voltados às pessoas portadoras de deficiência? Encontramos uma instituição que não só oferece essa oportunidade, mas também ajuda os deficientes visuais a desenvolverem maior independência em seu dia-a-dia.
“A sexualidade de uma pessoa com deficiência é igual à de uma pessoa dita ‘normal’”.
Izabeli Matos
Ao se pensar em portadores de deficiência auditiva, visual, mental ou física é comum que o pensamento seja sempre voltado às limitações desse indivíduo. O sentimento geralmente é de compaixão ou mesmo admiração e espanto quando vimos superando limites. Esquecemos que antes de tudo que se trata de uma pessoa completa: com personalidade, opiniões e vida social (que pode ser prejudicada por timidez ou medo do preconceito).
Visitamos a Escola de Ensino Fundamental Instituto dos Cegos, em Fortaleza que atualmente atende 141 alunos dentre eles não só deficientes visuais, mas também portadores de deficiência auditiva, física, mental e pessoas chamadas videntes, que são aquelas que não possuem deficiência. Os alunos que possuem limitações têm direito a levar um irmão para estudar com ele na escola. “Essa necessidade surgiu porque era muito complicado para as famílias ter os filhos estudando em escolas diferentes. Eles precisavam fazer duas viagens, mas agora fica bem mais fácil”, conta Gina Paula Pereira de Mendonça, 43, coordenadora pedagógica da Instituição. “Esse contato promove um exercício de convivência que representa crescimento para todos os estudantes. Eles assistem a todas as aulas juntos e convivem normalmente nos intervalos”.
Além das disciplinas curriculares como matemática e português, são ofertadas aos alunos aulas específicas, que têm o propósito de promover maior independência aos portadores de deficiência e que ajudam os deficientes visuais a superar dificuldades cotidianas, auxiliando em atividades que para um vidente são muito fáceis. Fazer a higiene pessoal ou caminhar pela própria casa, por exemplo, pode representar um obstáculo para um deficiente visual que não tenha sido estimulado desde cedo a fazê-lo sozinho. Isso ocorre muitas vezes porque a família da pessoa tem sobre ela um senso de proteção excessivo. “Às vezes a criança é apenas deficiente visual, mas acaba sendo também deficiente físico porque a família não a deixa fazer nada sozinha. Temos inclusive casos em que os pais não permitem que os filhos participem da aula”, afirma a coordenadora.
Ao se matricular na escola, todos passam primeiro pelo CAP (Centro de Apoio Pedagógico ao Deficiente Visual), que avalia e especifica as necessidades de cada um. Depois são encaminhados a atividades que atendam as necessidades identificadas. Aprendem a usar bengala, conhecem sinais novos (para o caso de deficientes auditivos) e participam de atividades na piscina para trabalhar coordenação motora, o que ajuda também deficientes físicos e mentais. Quando necessário, são feitos atendimentos individuais, disponibilizados conforme a necessidade. Acompanhamos por exemplo, um aluno em sua ida até a parada de ônibus. Ele tem contado com o auxílio de Izabeli Matos, 41, o estudante é surdo e está perdendo gradativamente a visão. Por conta disso, está aprendendo a se locomover utilizando a bengala. “Ele precisa desenvolver essa independência para quando ficar totalmente cego, o que vai acontecer com certeza”, afirma Izabeli. Durante o percurso, ela foi lhe ensinando sinais que ele ainda não conhecia, como o que representa o ponto de ônibus. Ao atravessar a rua, é guiado pela facilitadora. “Sempre orientamos que eles não tentem atravessar sozinhos, porque hoje existem carros importados que são silenciosos, ou mesmo motoristas distraídos. Por isso eles param na calçada e aguardam que alguém ofereça ajuda. E sempre aparece alguém”. Izabeli conta ainda que às vezes é necessário ir até a casa da pessoa para ajuda-la em alguma tarefa do dia-a-dia. Quando chegamos em um determinado ponto, o aluno se despede de nós “Ele diz que só devo vir até aqui porque é perigoso”. Mesmo com a bengala, depois de alguns passos acaba esbarrando em um carro parado. Izabeli observa de longe enquanto ele se recompõe, tateia e desvia do veículo. “Isso pode acontecer, mas é preciso que eles aprendam a superar”.
Além de ser professora de Hidroterapia e Natação, e fazer o atendimento de Orientação e Mobilidade, Izabeli é uma das fundadoras do projeto Núcleo Contato (nome escolhido pelos próprios participantes). A cada 15 dias os alunos se reúnem com os facilitadores para discutirem assuntos de grande interesse por parte dos jovens. No primeiro encontro, eles escolhem quais as problemáticas que serão discutidas durante o ano. Em 2008, alguns dos assuntos escolhidos: violência contra a mulher, homossexualidade, vícios, preconceitos, feminismo, DST’s e questões de gênero (os papéis do homem e da mulher na sociedade).
Como no Instituto não estudam apenas deficientes físicos, no projeto Contato há também a presença de adolescentes videntes. E as idéias de um não são tão diferentes das do outro. “A sexualidade de uma pessoa com deficiência é igual à de uma pessoa dita ‘normal’. Às vezes, o que pode acontecer é que devido a superproteção da família, o contato social acaba prejudicado, Então muitos são tímidos, mas eles namoram e se apaixonam como todo mundo”, afirma Izabeli.
O ponto de vista de cada um só faz aumentar a vontade de falar mais e mais sobre as problemáticas em questão. Os facilitadores procuram sempre fazer com que os estudantes falem sobre o que pensam e suas idéias são colocadas com total respeito, pois uma das regras do projeto é o respeito pela opinião do outro. Cada reunião inicia com uma dinâmica, brincadeira, dança ou algo que deixe todos mais à vontade para conversar. Coisas que os adolescentes sentem dificuldade de falar até com os próprios pais, no projeto são tratadas bem abertamente e com toda seriedade possível. A vergonha existe, mas depois de um tempo se transforma em dúvidas, opiniões, e até em risos às vezes. Mas no final todos entendem as questões colocadas e saem da sala de aula com um novo pensamento sobre o que foi debatido.
Os custos que envolvem capacitações para deficientes visuais são altos. De acordo com Gina, uma impressora que converte textos em braille (escrita para cegos, baseada no tato), por exemplo, é importada e custa 250 mil reais. “A nossa já está quase pifando, mas a manutenção é cara e os técnicos são raros”. No Instituto, é oferecido um laboratório de informática com quatro computadores e programas adaptados especialmente para pessoas com deficiência visual. Os aparelhos possuem o programa Dosvox que facilita a utilização dos aparelhos. À medida em que os alunos vão digitando, o programa lê a palavra e rapidamente completa o que o aluno escreve. Dois dos quatro computadores têm instalado um outro tipo de programa, o Virtual Vision que é mais avançado do que o Dosvox. A professora responsável pelo laboratório acaba de passar por uma capacitação em outra cidade, para aprender a utilizar o programa. O preço do Virtual Vision é de 4 mil reais, mas o do Instituto foi doado por uma das empresas que ajudam a instituição. Mas vale a reflexão: mesmo aprendendo a utilizar o programa, não é em qualquer lan house que os portadores de deficiência visual vão encontrá-lo.
Os estudantes percebem o quanto a inclusão está distante. Mesmo passando por capacitações e recebendo certificados de cursos, na hora de procurar trabalho as dificuldades aparecem. Muitos preferem se aposentar, o que demora tempo devido aos processo burocráticos. “Demorei 2 anos para conseguir a aposentadoria”, afirma Leidimar Rodrigues, 24 anos. Se for concedido o benefício, ao conseguir emprego ele é perdido, por isso muitos preferem não arriscar.
Redação e diagramação: Francisco José Barbosa, Sheryda Lopes
Fotos: Francisco José Barbosa